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ATO1


DORES

Nem a solidão, nem o desprezo, são dispensados das cenas que vi em 3 paredes e meia. Na verdade são fonte de criação, tanto do espetáculo, quanto do escritor Jean Genet, no qual a montagem se inspira. Tudo dialoga em harmonia: ator, dramaturgo e diretor. Sérgio Pires, sempre com seus textos ácidos e provocativos, nos enche de imagens inquietantes, que são aproveitadas por Emerson Rossini, que com mão delicada e forte as constrói e reconstrói o tempo todo. Álias a parceria entre os dois já é antiga: os dois já trabalharam juntos em Cadência, como diretor e dramaturgo; e em outros espetáculos com outras funções.

Pedro Vieira completa esse diálogo de forma intensa com sua personagem, que o tempo todo se confude entre o próprio Genet e suas criações. Vieira dá um tratamento refinado à composição corporal da(s) personagem(s) e que de maneira muito peculiar nos deixa dentro do jogo proposto pelo diretor e dramaturgo: o limite entre criador e criação, entre o eu e a personagem. Jogo este bastante contemporâo.

Emerson encontrou na simplicidade a maneira ideal de contar essa história: um preso (Jean Genet) espera em sua cela por sua audiência e pelo banho de sol. Esta espera é preenchida/invadida por fragmentos de suas criações. A obra de Genet escolhida para ser fonte desse jogo é "Nossa Senhora das Flores".

É pelo meio que sobra das 3 paredes e meia é que podemos ver essa composição/decomposição do ator/personagens. Tudo muito simples. Tudo muito delicado. E a humanidade que Pedro empresta/doa aos personagens e torna tudo aquilo que é muito simples, pungente. Cada vez que ele diz :"meus músculos estão moles", é como se cada pedaço do seu eu clamasse para ser ouvido.

O que é devasso em Genet (escritor), não deixa de ser devasso em Genet (personagem), no entanto é humanamente devasso, precisamente devasso. Isso se deve a esse diálogo tri-partido entre ator-diretor-dramatugo.

 

3 paredes e meia

Dramaturgia: Sérgio Pires

Direção; Emerson Rossini

Intérprete: Pedro Vieira

Espaço dos Satyros II

Praça Roosevelt, 124 fone: 3258 6345



Escrito por Marcos Lemes às 18h10
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RELAÇÕES HUMANAS DECOMPOSTAS

por Marcos Lemes

 

Dois atores no palco prontos para estabelecer um pacto com a platéia: contar uma história que trate do humano. Duas personagens em cena prontas para estabelecer um pacto entre si: ir até o fundo de suas almas e até as últimas conseqüências em busca de sua redenção.

 

Ambos estão em exposição: atores e personagens. E é esta exposição crua, sem piedade, sem rodeios que se pode esperar de Fratelo.

 

Dois corpos cobertos por lençóis brancos. Sentamos muito próximos a eles. Não há cenário ou qualquer outro elemento que desvie nossa atenção. Estamos lá diante de dois cadáveres, que numa espécie de espasmo voltam à vida (?).

 

Nasceram no mesmo dia, na mesma maternidade, foram criados no mesmo bairro, na mesma rua, estudaram na mesma escola. Na mesma família? Um tornou-se açougueiro o outro executivo de uma grande multinacional. Essa diferença (açougueiro/executivo; pobre/rico) já não os tornam diferentes. Afinal nos deparamos com eles em um necrotério, e talvez seja isso que iguale os seres humanos: a morte. A implacável ceifadora dos sonhos, das conquistas. Eles morreram no mesmo dia, atropelados pelo mesmo caminhão. Ironia do destino? Brincadeira da vida? Ou da morte?

 

Necrotério. E de lá não tem como escapar. Não há como adiar o confronto, que teve de esperar toda uma vida para acontecer. E é depois de mortos que ele será consumado. O encontro inevitável. Aquele que traz à tona a verdade escondida no mais íntimo do ser; aquilo que não foi dito, não porque não queria ser dito, mas porque não poderia sê-lo.

 

Todas as vezes que mudamos de calçada para evitar o encontro dos olhares; todas as vezes que não atendemos ao telefone porque identificamos o número; todos os recados que não foram retornados; todas as mentiras que dissemos em nome da verdade. Tudo. Agora não há como escapar, como fugir, como mudar de calçada. Agora é hora. Esse confronto não é um simples acerto de contas, mas é o momento, talvez único, na vida desses dois homens, em que eles não podem mentir, nem para si (como se isso fosse possível) nem para o outro (não haverá outra oportunidade de encontro).

 

Não há julgamento externo. Eles são seus próprios inquisidores e defensores; seus próprios juízes. São réus e vítimas ao mesmo tempo. Colocar esses dois “irmãos” frente a frente; ou talvez lado a lado; é colocar em xeque a relação dos seres humanos, seus conflitos, suas diferenças, suas igualdades.

 

Em estado alterado, que começa com um pequeno enrijecimento das articulações, passando pelos músculos, até a total falta de movimento, esses dois homens são expostos a eles mesmo. Não conseguem esconder o que são, nem quem foram.

 

Fratelo estreiou em 2003 e já passou por diversas temporadas em algumas cidades e esteve no Festival de Curitiba na edição de 2004. O texto é de Manoel Mesquita Júnior, que também assina a direção, com a colaboração dos atores em sala de ensaio.

 



Escrito por Marcos Lemes às 14h27
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RINS E FÍGADOS AOS HOMENS

por Marcos Lemes

 

Todo artista é um encenador de si mesmo e a parceria entre Gerald Thomas e Marco Nanini reforça essa idéia.

 

Thomas na grande maioria das vezes escreveu as peças que dirigiu. Também cria a luz, o projeto gráfico, a trilha sonora. É a maneira que ele encontra para realizar seu projeto estético. Peças como THE FLASH AND CRASH DAYS, O IMPÉRIO DAS MEIAS VERDADES são exemplos dessa realização.

 

Nanini é ator. Excepcional. É presença marcante em cena, independente do veículo em que atua. Presença essa caracterizada principalmente por sua interpretação autoral.

 

Os dois estão juntos no espetáculo UM CIRCO DE RINS E FÍGADOS que conta a história de um ator chamado Marco Nanini (isso não caracteriza o trabalho como autobiográfico). Nanini – a personagem – recebe várias caixas com documentos secretos e outras tantas com vísceras humanas. As caixas foram enviadas por João Paradeiro, um brasileiro que mora em Nova Iorque e desaparece após os ataques terroristas de 11 de setembro. Os documentos secretos são, entre outras coisas, sobre a intervenção da CIA no golpe militar de 64 no Brasil. As vísceras – rins e fígados – são provas da existência de uma rede de tráfico internacional de órgãos.

 

Thomas se reinventa: o texto agora apresenta uma estrutura linear e dialoga com referências e idéias de Shakespeare, Beckett, Genet, Kafka, apresentando considerações estéticas e políticas. No entanto, ardiloso como ele só, mantém signos que marcaram sua trajetória: a insistente fumaça que invade o teatro e sua breve aparição em cena (seria uma citação ao cineasta Alfred Hitchcock?).

 

Nanini – o ator – explora todas as nuances de Nanini – a personagem. É impressionante o tratamento dado pelo ator aos momentos de ironia, humor negro. Ele explora cada gesto, cada frase, cada palavra e desenha aquela figura que trabalha no IML e sodomiza cadáveres. Nanini – o ator – brinca de se confundir com Nanini – a personagem – o tempo todo e esse jogo garante uma vibração única ao espetáculo, promovida pela energia do ator, que está em cena com uma performance brilhante e a histeria do diretor, traduzida em cenas surpresas e ritmos acelerados.

 

Se a máxima diz Pão e Circo aos Pobres, a dupla Thomas e Nanini bradam Rins e Fígados aos Homens, numa espécie de possibilidade de vomitar os sapos engolidos num processo histórico esmagador e bastante atual.

 

 

UM CIRCO DE RINS E FÍGADOS

Texto e Direção de Gerald Thomas

Com Marco Nanini, Fabiana Guglielmetti, Amadeo Lamounier, Gilson Matogrosso, Pedro Osório, Gustavo Wabner e Ismael Caneppele.

Sesc Vila Mariana – Rua Pelotas, 141 – fone: 5080-3000

Sexta e sábado às 21h, domingo às 18h.

R$ 10,00 a R$ 30,00 . Até 11/12/05



Escrito por Marcos Lemes às 14h24
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Prólogo

Este blog foi criado por Marcos Lemes (com a ajuda técnica de Valmir Junior) para falar sobre Teatro e outras artes.



Escrito por Marcos Lemes às 14h10
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