Escrito por Marcos Lemes às 18h10
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RELAÇÕES HUMANAS DECOMPOSTAS
por Marcos Lemes
Dois atores no palco prontos para estabelecer um pacto com a platéia: contar uma história que trate do humano. Duas personagens em cena prontas para estabelecer um pacto entre si: ir até o fundo de suas almas e até as últimas conseqüências em busca de sua redenção.
Ambos estão em exposição: atores e personagens. E é esta exposição crua, sem piedade, sem rodeios que se pode esperar de Fratelo.
Dois corpos cobertos por lençóis brancos. Sentamos muito próximos a eles. Não há cenário ou qualquer outro elemento que desvie nossa atenção. Estamos lá diante de dois cadáveres, que numa espécie de espasmo voltam à vida (?).
Nasceram no mesmo dia, na mesma maternidade, foram criados no mesmo bairro, na mesma rua, estudaram na mesma escola. Na mesma família? Um tornou-se açougueiro o outro executivo de uma grande multinacional. Essa diferença (açougueiro/executivo; pobre/rico) já não os tornam diferentes. Afinal nos deparamos com eles em um necrotério, e talvez seja isso que iguale os seres humanos: a morte. A implacável ceifadora dos sonhos, das conquistas. Eles morreram no mesmo dia, atropelados pelo mesmo caminhão. Ironia do destino? Brincadeira da vida? Ou da morte?
Necrotério. E de lá não tem como escapar. Não há como adiar o confronto, que teve de esperar toda uma vida para acontecer. E é depois de mortos que ele será consumado. O encontro inevitável. Aquele que traz à tona a verdade escondida no mais íntimo do ser; aquilo que não foi dito, não porque não queria ser dito, mas porque não poderia sê-lo.
Todas as vezes que mudamos de calçada para evitar o encontro dos olhares; todas as vezes que não atendemos ao telefone porque identificamos o número; todos os recados que não foram retornados; todas as mentiras que dissemos em nome da verdade. Tudo. Agora não há como escapar, como fugir, como mudar de calçada. Agora é hora. Esse confronto não é um simples acerto de contas, mas é o momento, talvez único, na vida desses dois homens, em que eles não podem mentir, nem para si (como se isso fosse possível) nem para o outro (não haverá outra oportunidade de encontro).
Não há julgamento externo. Eles são seus próprios inquisidores e defensores; seus próprios juízes. São réus e vítimas ao mesmo tempo. Colocar esses dois “irmãos” frente a frente; ou talvez lado a lado; é colocar em xeque a relação dos seres humanos, seus conflitos, suas diferenças, suas igualdades.
Em estado alterado, que começa com um pequeno enrijecimento das articulações, passando pelos músculos, até a total falta de movimento, esses dois homens são expostos a eles mesmo. Não conseguem esconder o que são, nem quem foram.
Fratelo estreiou em 2003 e já passou por diversas temporadas em algumas cidades e esteve no Festival de Curitiba na edição de 2004. O texto é de Manoel Mesquita Júnior, que também assina a direção, com a colaboração dos atores em sala de ensaio.
Escrito por Marcos Lemes às 14h27
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RINS E FÍGADOS AOS HOMENS
por Marcos Lemes
Todo artista é um encenador de si mesmo e a parceria entre Gerald Thomas e Marco Nanini reforça essa idéia.
Thomas na grande maioria das vezes escreveu as peças que dirigiu. Também cria a luz, o projeto gráfico, a trilha sonora. É a maneira que ele encontra para realizar seu projeto estético. Peças como THE FLASH AND CRASH DAYS, O IMPÉRIO DAS MEIAS VERDADES são exemplos dessa realização.
Nanini é ator. Excepcional. É presença marcante em cena, independente do veículo em que atua. Presença essa caracterizada principalmente por sua interpretação autoral.
Os dois estão juntos no espetáculo UM CIRCO DE RINS E FÍGADOS que conta a história de um ator chamado Marco Nanini (isso não caracteriza o trabalho como autobiográfico). Nanini – a personagem – recebe várias caixas com documentos secretos e outras tantas com vísceras humanas. As caixas foram enviadas por João Paradeiro, um brasileiro que mora em Nova Iorque e desaparece após os ataques terroristas de 11 de setembro. Os documentos secretos são, entre outras coisas, sobre a intervenção da CIA no golpe militar de 64 no Brasil. As vísceras – rins e fígados – são provas da existência de uma rede de tráfico internacional de órgãos.
Thomas se reinventa: o texto agora apresenta uma estrutura linear e dialoga com referências e idéias de Shakespeare, Beckett, Genet, Kafka, apresentando considerações estéticas e políticas. No entanto, ardiloso como ele só, mantém signos que marcaram sua trajetória: a insistente fumaça que invade o teatro e sua breve aparição em cena (seria uma citação ao cineasta Alfred Hitchcock?).
Nanini – o ator – explora todas as nuances de Nanini – a personagem. É impressionante o tratamento dado pelo ator aos momentos de ironia, humor negro. Ele explora cada gesto, cada frase, cada palavra e desenha aquela figura que trabalha no IML e sodomiza cadáveres. Nanini – o ator – brinca de se confundir com Nanini – a personagem – o tempo todo e esse jogo garante uma vibração única ao espetáculo, promovida pela energia do ator, que está em cena com uma performance brilhante e a histeria do diretor, traduzida em cenas surpresas e ritmos acelerados.
Se a máxima diz Pão e Circo aos Pobres, a dupla Thomas e Nanini bradam Rins e Fígados aos Homens, numa espécie de possibilidade de vomitar os sapos engolidos num processo histórico esmagador e bastante atual.
UM CIRCO DE RINS E FÍGADOS
Texto e Direção de Gerald Thomas
Com Marco Nanini, Fabiana Guglielmetti, Amadeo Lamounier, Gilson Matogrosso, Pedro Osório, Gustavo Wabner e Ismael Caneppele.
Sesc Vila Mariana – Rua Pelotas, 141 – fone: 5080-3000
Sexta e sábado às 21h, domingo às 18h.
R$ 10,00 a R$ 30,00 . Até 11/12/05
Escrito por Marcos Lemes às 14h24
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Prólogo
Este blog foi criado por Marcos Lemes (com a ajuda técnica de Valmir Junior) para falar sobre Teatro e outras artes.
Escrito por Marcos Lemes às 14h10
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